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Escala 5x2 em restaurantes:
o que muda e como se organizar

Gestão de pessoas · 2 de novembro de 2026 · 9 min de leitura · Por Bia Chiandotti

Calendário com dias marcados por alfinetes vermelhos

A escala 6x1 acabou. A emenda que muda a jornada foi promulgada em outubro e começa a valer em 15 de dezembro de 2026. Para quem tem bar, restaurante, padaria ou cafeteria, que abre seis ou sete dias por semana, isso não é só uma troca de escala: mexe na quantidade de gente, no custo da hora e, no fim da conta, no preço do cardápio.

O que muda na lei

A Emenda Constitucional 141/2026 foi promulgada pelo Congresso em 16 de outubro de 2026. Segundo a Agência Brasil, as regras entram em duas etapas:

Calendário da mudança

Até 15 de dezembro de 2026Fim da 6x1
A partir de 15/12/20265x2 e 42 horas por semana
Durante a transiçãoAté 8h24 por dia
14 meses após a promulgação40 horas por semana, 8 por dia

A redução de jornada acontece sem redução de salário. Hora trabalhada além do limite passa a ser hora extra.

Na prática, todo funcionário passa a ter duas folgas por semana. A lei abre uma exceção: por convenção ou acordo coletivo, a empresa pode usar outro regime de compensação, inclusive o 6x1, desde que a folga que faltou seja compensada dentro do mesmo mês e a média feche em duas folgas por semana.

Ou seja, a exceção existe, mas depende do sindicato da sua categoria. Não é uma decisão que o dono toma sozinho.

Por que pesa mais na alimentação

Um escritório fecha no sábado e no domingo. Um restaurante vende justamente no sábado e no domingo. Essa é a diferença.

Quem abre sete dias e tem o pico de movimento no fim de semana não consegue simplesmente dar duas folgas para todo mundo no mesmo dia. A folga tem que ser distribuída, e cada folga a mais é um buraco na escala que alguém precisa cobrir.

E a mão de obra já é, em quase toda operação que atendo, o segundo maior custo depois do CMV. É também o custo mais difícil de ajustar rápido. Por isso vale fazer a conta agora, antes de dezembro, e não descobrir o tamanho do impacto no fechamento de janeiro.

A conta de quantas pessoas você precisa

A pergunta certa não é "quantos funcionários eu tenho", e sim "quantos postos eu preciso cobrir por dia". A conta é esta:

Dimensionamento da equipe

Pessoas = postos por dia × dias abertos ÷ dias trabalhados por pessoa

Faça setor por setor: cozinha, salão, caixa, bar, produção. O posto é a função que precisa estar ocupada naquele turno.

Exemplo de uma cozinha que precisa de 4 pessoas por dia e abre os 7 dias da semana:

Cozinha com 4 postos, aberta 7 dias

Turnos a cobrir na semana (4 × 7)28
Na 6x1: 28 ÷ 6 dias por pessoa4,7 pessoas
Na 5x2: 28 ÷ 5 dias por pessoa5,6 pessoas
Diferençaquase 1 pessoa a mais

Número quebrado é normal. É ele que mostra onde cabe um folguista que cobre mais de um setor, em vez de uma contratação inteira em cada um.

Três funcionários de restaurante sorrindo atrás do balcão
Com duas folgas por semana, a escala precisa ser desenhada setor por setor, e não no improviso.

O custo da hora sobe mesmo sem contratar

Mesmo quem não contratar ninguém vai pagar mais caro por hora trabalhada. O salário fica igual e a jornada diminui, então cada hora custa mais.

Funcionário com salário de R$ 2.400

44 horas por semana (divisor 220)R$ 10,91 por hora
42 horas por semana (divisor 210)R$ 11,43 por hora (+4,8%)
40 horas por semana (divisor 200)R$ 12,00 por hora (+10%)

A hora extra, com o adicional mínimo de 50%, acompanha: passa de R$ 16,36 para R$ 18,00 no fim da transição. Valores de exemplo, sem encargos.

Esse é o ponto que mais me preocupa nas casas que fecham a escala no improviso: cobrir o buraco com hora extra. Parece mais barato que contratar, mas a hora extra fica mais cara justamente agora, e vira custo fixo disfarçado.

Onde isso aparece no preço

Folha é custo fixo. Quando o custo fixo sobe e o faturamento fica igual, sobra menos espaço para o CMV e para o lucro. É a mesma lógica que explico no artigo sobre como precificar o cardápio.

Casa com faturamento de R$ 150.000 por mês

Folha hoje, com encargosR$ 36.000 (24,0%)
Uma pessoa a mais, com encargos+ R$ 3.800
Folha depois da 5x2R$ 39.800 (26,5%)

São 2,5 pontos do faturamento que saem do lucro, a não ser que o preço, o CMV ou a escala se ajustem.

Se o seu cardápio foi precificado com a folha antiga, ele está desatualizado a partir de dezembro. Vale recalcular o DRE com a folha nova e ver quanto o CMV ideal da casa mudou.

Como reorganizar sem inchar a folha

Olhe o movimento por dia e por turno

Antes de desenhar a escala, veja quanto você vende em cada dia e turno. Na maioria das casas existem dois ou três turnos fracos na semana. É neles que as folgas devem cair.

Monte a escala de folgas por setor

Folga rotativa, com fim de semana alternado, distribuída setor por setor. Escala montada no papel, com antecedência, evita o furo de última hora que vira hora extra.

Treine as pessoas para mais de uma função

Um folguista que sabe fazer chapa, fritura e montagem cobre três postos. Isso só funciona quando o preparo está padronizado em ficha técnica: quem cobre a folga executa o prato igual a quem está de folga.

Adiante o pré-preparo

Porcionar, higienizar e deixar molhos e bases prontos nos dias de menos movimento tira carga do pico. Menos gente precisa estar na cozinha no sábado à noite.

Revise horário e cardápio

Abrir um turno que vende pouco custa mais caro a partir de dezembro. O mesmo vale para pratos que dão muito trabalho de preparo e vendem pouco: é hora de olhar a curva de vendas e cortar o que só ocupa a cozinha.

O que fazer até 15 de dezembro

  1. Levante quantos postos cada setor precisa por dia e turno.
  2. Refaça a conta de pessoas na 5x2 e compare com a equipe atual.
  3. Monte a escala de folgas de dezembro e janeiro, já com as férias de fim de ano.
  4. Calcule a folha nova, com encargos, e o novo peso dela no faturamento.
  5. Revise preço e CMV ideal com esse custo fixo atualizado.
  6. Confirme com o seu contador e com a convenção coletiva do sindicato da sua categoria antes de mudar contratos.

Este artigo é orientação de gestão, não parecer jurídico. As datas e regras seguem o que foi divulgado pela Agência Brasil sobre a Emenda Constitucional 141/2026. Detalhes como acordos coletivos e regras da sua categoria precisam ser conferidos com o seu contador.

Em resumo

A 5x2 não é só um ajuste de RH. Ela aumenta o custo da hora, pede mais gente para cobrir a mesma operação e, por consequência, muda o preço que o seu cardápio deveria ter.

Quem fizer a conta agora, setor por setor, chega em dezembro com a escala pronta e o preço ajustado. Quem deixar para depois vai descobrir o impacto no primeiro fechamento do ano.

Perguntas frequentes

Quando a escala 5x2 começa a valer?

Segundo a Agência Brasil, em 15 de dezembro de 2026, 60 dias depois da promulgação da Emenda Constitucional 141/2026. Nessa data a jornada cai de 44 para 42 horas semanais, e chega a 40 horas cerca de 14 meses após a promulgação.

Posso reduzir o salário junto com a jornada?

Não. A redução de jornada prevista na emenda acontece sem redução salarial.

Meu restaurante ainda pode trabalhar na escala 6x1?

Só de forma excepcional, por convenção ou acordo coletivo, e com a folga compensada dentro do mesmo mês, de modo que a média feche em duas folgas por semana. Confira a convenção do sindicato da sua categoria com o seu contador.

Vou precisar contratar mais gente?

Depende de quantos postos você precisa cobrir por dia e de quantos dias abre. A conta é postos por dia multiplicado pelos dias abertos, dividido por cinco. Em casas que abrem sete dias, costuma faltar perto de uma pessoa a cada quatro postos.

BC

Bia Chiandotti

Gastrônoma, com MBAs em Gestão Financeira e em Negócios da Gastronomia. Há mais de 9 anos ajuda restaurantes, padarias, hamburguerias e buffets a aumentarem a lucratividade por meio de gestão, precificação e processos. Mais de 60 negócios atendidos em Santos, na Baixada Santista e em São Paulo.

Quer montar a nova escala com os números da sua casa?

Eu levanto o movimento por dia e turno, refaço a escala com você e mostro quanto o novo custo da folha pede de ajuste no cardápio.

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