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Como precificar
o seu cardápio

Precificação · 27 de julho de 2026 · 9 min de leitura · Por Bia Chiandotti

Quase todo restaurante que atendo formou preço olhando o concorrente. É compreensível — e é a raiz do problema. O custo do vizinho não é o seu, a estrutura dele não é a sua, e o preço que funciona para ele pode te levar ao prejuízo.

Por onde começar

Precificação correta começa com uma pergunta que muita operação não sabe responder: quanto custa produzir este item?

Não o custo do ingrediente principal. O custo completo: cada componente na gramatura real, incluindo o que costuma ser esquecido — o azeite de finalização, a guarnição, o molho, o pão que acompanha.

Esse número vem da ficha técnica. Sem ela, qualquer preço é chute com aparência de método.

O método do markup

Markup é o multiplicador que transforma custo em preço de venda. Ele precisa cobrir, além do custo do prato, tudo que incide sobre a venda.

Fórmula do markup

Markup = 100 ÷ (100 − custos percentuais)

Custos percentuais são os que variam com a venda: impostos, taxa de cartão, comissão de aplicativo e a margem de lucro que você quer.

E o preço sai assim:

Preço de venda

Preço = Custo do prato × Markup

Exemplo passo a passo

Um prato com custo de ficha técnica de R$ 12,00, numa operação com:

ItemPercentual
Impostos (Simples Nacional)8%
Taxa média de cartão3%
Custos fixos rateados28%
Margem de lucro desejada12%
Total51%

Cálculo

Markup = 100 ÷ (100 − 51)2,04
Custo do pratoR$ 12,00
Preço de vendaR$ 24,48
Na prática, arredonda-se para R$ 24,90 — o que devolve alguns centavos de margem.

Repare que o CMV desse prato fica em 48% sobre o preço final. Alto para a média de mercado — e é exatamente por isso que o cálculo importa: no cardápio inteiro, esse prato precisa ser compensado por outros de custo relativo menor.

Preço não se define item por item, isoladamente. Define-se o cardápio como conjunto.

Alguns pratos carregam margem, outros carregam movimento. O erro é aplicar o mesmo markup em tudo e não saber qual é qual.

Os custos que somem da conta

Estes são os que mais vejo faltando nas fichas técnicas:

  • Fator de correção. Você compra 1 kg de alface e usa 700 g. O custo real do que vai no prato é o preço dividido pelo aproveitamento, não o preço de compra
  • Perda de cocção. Carne perde peso ao ser cozida. 200 g crus não são 200 g no prato
  • Guarnição e acompanhamento. O arroz, a farofa, a salada que vai junto
  • Finalização. Azeite, ervas, redução — pequenos por unidade, relevantes no volume
  • Embalagem no delivery. Pote, sacola, talher, lacre. Pode passar de R$ 3 por pedido
  • Molhos e cortesias. O que sai "de graça" sai do seu estoque

Erros que corroem a margem

Copiar o preço do concorrente

O custo dele pode ser menor por volume de compra, o aluguel pode ser mais barato, a operação pode ser mais enxuta. Copiar preço sem conhecer a estrutura é apostar que ele fez a conta certa — o que, na maioria das vezes, ele não fez.

Aplicar o mesmo markup em tudo

Bebida, sobremesa e prato principal têm elasticidade diferente. O cliente compara o preço do prato com o do restaurante ao lado; raramente compara o da sobremesa. Onde há menos comparação, há espaço para margem.

Esquecer a taxa do delivery

Aplicativo cobra entre 12% e 30%. Se o preço no app é igual ao do salão, essa comissão sai inteira do seu lucro. O preço precisa ser diferente por canal — é prática comum no setor e os aplicativos permitem.

Não revisar

Insumo sobe o ano inteiro. Cardápio que não é revisado há doze meses está, quase certamente, com margem menor do que quando foi definido. Revise a cada três ou quatro meses, mesmo que só para conferir.

Precificar sem saber o custo fixo

O percentual de custos fixos rateados do exemplo — 28% — sai do seu DRE. Sem DRE, esse número é chute, e todo o markup se apoia nele.

Como aumentar preço sem perder cliente

O medo de perder movimento faz muita operação segurar preço até o prejuízo. Algumas formas de ajustar com menos atrito:

Não aumente tudo de uma vez

Ajuste por grupos, ao longo de alguns meses. O cliente percebe o aumento generalizado; raramente percebe o ajuste pontual.

Comece pelo que é menos comparado

Sobremesa, bebida, entrada, acompanhamento extra. O prato principal é a referência de preço na cabeça do cliente — mexa nele por último.

Reveja a porção antes do preço

Às vezes a porção está generosa demais e gera sobra no prato. Ajustar a gramatura para o que é realmente consumido reduz custo sem que ninguém sinta falta.

Mude o cardápio junto

Preço novo em cardápio novo, com itens diferentes e outra diagramação, é muito menos perceptível que um preço alterado no mesmo cardápio de sempre.

Um lembrete que vale repetir: cliente não vai embora por causa de R$ 2. Vai embora por comida ruim, espera longa ou atendimento indiferente.

Preço baixo com operação sofrendo entrega uma experiência pior do que preço justo com operação saudável.

Perguntas frequentes

Como calcular o preço de venda de um prato?

Parta do custo da ficha técnica e multiplique pelo markup. O markup é 100 dividido por (100 menos a soma dos percentuais de impostos, taxa de cartão, custos fixos rateados e margem desejada). Depois arredonde para um valor comercial.

O que é markup?

É o multiplicador que transforma o custo de um prato em preço de venda. Ele precisa cobrir, além do custo do insumo, tudo que incide sobre a venda: impostos, taxas, rateio de custo fixo e a margem de lucro.

Devo cobrar mais caro no delivery?

Na maioria dos casos, sim. Se o aplicativo cobra de 12% a 30% de comissão e o preço é o mesmo do salão, essa comissão sai inteira da sua margem. O preço no delivery precisa absorver a comissão e a embalagem.

De quanto em quanto tempo devo revisar os preços?

A cada três ou quatro meses, mesmo que seja apenas para conferir. Insumo sobe continuamente, e cardápio sem revisão há um ano está quase sempre com margem menor do que a planejada.

Posso definir preço olhando a concorrência?

A concorrência serve como referência final, nunca como ponto de partida. O custo, a estrutura e o volume de compra do concorrente podem ser completamente diferentes dos seus. Calcule o seu preço primeiro; depois compare e decida se o posicionamento faz sentido.

O que é fator de correção e por que importa?

É a diferença entre o peso comprado e o peso aproveitado. Se você compra 1 kg de um vegetal e utiliza 700 g, o custo real do que vai ao prato é o preço de compra dividido por 0,7. Ignorar isso subestima o custo em dezenas de por cento em itens com muita aparação.

BC

Bia Chiandotti

Gastrônoma, com MBAs em Gestão Financeira e em Negócios da Gastronomia. Há mais de 7 anos ajuda restaurantes, padarias, hamburguerias e buffets a aumentarem a lucratividade por meio de gestão, precificação e processos. Mais de 60 negócios atendidos em Santos, na Baixada Santista e em São Paulo.

Seu cardápio está precificado ou copiado?

Monto a ficha técnica de cada item e recalculo o preço com margem real. Me conte como está hoje.

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