Início › Blog › DRE para restaurante
DRE para
restaurante
Existe uma frase que ouço em quase toda primeira reunião: “o movimento tá bom, mas não sei pra onde vai o dinheiro”. A resposta quase sempre está numa conta que o negócio nunca montou.
Neste artigo
O que é o DRE
DRE é a sigla de Demonstrativo do Resultado do Exercício. É o relatório que organiza tudo que entrou e tudo que saiu num período e mostra, no fim, quanto de fato sobrou.
Parece óbvio, mas quase nenhuma operação pequena tem. O acompanhamento é feito pelo extrato bancário — e extrato não é resultado.
Por que o saldo do banco engana: ele mostra o que já foi pago, não o que foi gerado.
Você pode terminar o mês com R$ 30 mil no banco e ter tido prejuízo, porque metade das contas do mês vence só na semana seguinte. E pode terminar com saldo apertado num mês excelente, porque pagou o 13º. O extrato responde "tenho dinheiro hoje?". O DRE responde "este mês deu lucro?".
A estrutura, linha por linha
Um DRE de restaurante tem seis blocos. A ordem importa, porque cada um responde a uma pergunta diferente.
1. Receita bruta
Tudo que você vendeu: salão, delivery, balcão, eventos. Separe por canal — é o que permite descobrir depois qual canal sustenta o negócio.
2. Deduções
O que sai direto da venda: impostos sobre faturamento, taxas de cartão, comissão de aplicativo. Receita bruta menos deduções é a receita líquida, e é sobre ela que a análise real acontece.
3. CMV
O custo dos insumos consumidos no período. É a maior linha variável da operação. Se você ainda não calcula, comece por aqui.
Receita líquida menos CMV é a margem de contribuição — quanto sobra de cada venda para pagar a estrutura.
4. Custos fixos
O que existe independentemente do movimento: aluguel, folha e encargos, energia, água, gás, internet, contabilidade, softwares, seguros, manutenção.
Folha é, em quase toda operação, o segundo maior custo depois do CMV — e o mais difícil de ajustar rápido.
5. Custos variáveis não-CMV
Embalagem, descartáveis, produto de limpeza, marketing. Variam com o movimento mas não são mercadoria vendida.
6. Resultado
O que sobrou. Se for negativo, o mês deu prejuízo — mesmo que o banco esteja positivo.
Exemplo completo
Um restaurante de porte médio, mês fechado:
DRE do mês
Deduções
Custos
Faturou R$ 130 mil e sobraram R$ 4.640. É um resultado apertado, mas agora é visível — e cada linha aponta onde mexer.
Repare na comissão do aplicativo: R$ 8.360 num mês. É mais que o resultado inteiro. Esse é o tipo de descoberta que só aparece quando o DRE separa por canal.
Ponto de equilíbrio
Com o DRE montado, dá para calcular quanto você precisa faturar para não ter prejuízo.
Ponto de equilíbrio
PE = Custos fixos ÷ Margem de contribuição %
Esse número muda a conversa. Você para de perguntar "vendemos bem hoje?" e passa a perguntar "passamos dos R$ 4 mil?".
E ele responde perguntas que antes eram intuição: vale abrir no feriado? Compensa contratar mais uma pessoa? Aquele evento com desconto de 20% dá lucro?
Erros que distorcem tudo
Misturar conta pessoal com a do negócio
O erro mais comum e o mais destrutivo. Retirada do sócio precisa ser uma linha, com valor definido. Sem isso não existe DRE confiável — e não dá para saber se o negócio paga o próprio dono.
Considerar o pró-labore como lucro
Pró-labore é custo, e entra na folha. Lucro é o que sobra depois dele. Um negócio que só paga o salário do dono não é lucrativo, é um emprego com risco de empresário.
Registrar pelo pagamento, não pela competência
A conta de energia de julho pertence a julho, mesmo que seja paga em agosto. Registrar pela data de pagamento embaralha os meses e impede comparação.
Esquecer os custos anuais
13º, férias, IPTU, licenças, alvará. Divida por doze e provisione todo mês. Quem não faz isso tem onze meses bons e um desastroso, todo ano.
Não separar por canal
Salão e delivery têm estruturas de custo muito diferentes. Juntar os dois esconde qual está sustentando o negócio — e qual está só ocupando a cozinha.
Como manter a rotina
DRE só serve se for feito todo mês. Algumas coisas que ajudam:
- Feche sempre no mesmo dia, com a mesma regra
- Faça o inventário antes de qualquer entrega do mês seguinte
- Mantenha um plano de contas fixo — não crie categoria nova a cada mês, ou perde a comparação
- Compare sempre com os meses anteriores; o valor isolado diz pouco, a tendência diz tudo
- Reserve uma hora por mês para ler o resultado, não só preencher
Comece imperfeito. Um DRE com categorias aproximadas, feito todos os meses, vale infinitamente mais que um DRE perfeito feito uma vez e abandonado.
A precisão vem com a repetição. O que não vem com nada é o hábito de não olhar.
Perguntas frequentes
O que é DRE de restaurante?
É o Demonstrativo do Resultado do Exercício: o relatório que organiza receitas, deduções, CMV, custos fixos e variáveis de um período e mostra quanto de fato sobrou. É o que revela se o mês deu lucro — algo que o saldo bancário não informa.
Qual a diferença entre DRE e fluxo de caixa?
O DRE mostra o resultado por competência, ou seja, o que foi gerado e consumido naquele mês, independentemente de quando foi pago. O fluxo de caixa mostra a movimentação real de dinheiro por data de pagamento. Você precisa dos dois: um diz se deu lucro, o outro diz se vai ter dinheiro na sexta.
Como calcular o ponto de equilíbrio de um restaurante?
Divida o total de custos fixos pela margem de contribuição percentual. O resultado é o faturamento mínimo para não ter prejuízo. Dividindo por dias de operação, você obtém a meta diária.
O pró-labore entra como custo ou como lucro?
Como custo, dentro da folha. Lucro é o que sobra depois de todos os custos, incluindo a remuneração do sócio. Tratar pró-labore como lucro mascara a real saúde do negócio.
Com que frequência devo fechar o DRE?
Mensalmente, sempre no mesmo dia e com o mesmo plano de contas. A comparação entre meses é o que dá valor ao relatório — um DRE isolado informa pouco.
Preciso de contador para montar o DRE?
O contador cuida do DRE fiscal, que atende à legislação. O DRE gerencial, que é o usado para tomar decisão, é montado com as categorias que fazem sentido para a sua operação e pode ser estruturado junto com uma consultoria. Os dois convivem e têm finalidades diferentes.
Bia Chiandotti
Gastrônoma, com MBAs em Gestão Financeira e em Negócios da Gastronomia. Há mais de 7 anos ajuda restaurantes, padarias, hamburguerias e buffets a aumentarem a lucratividade por meio de gestão, precificação e processos. Mais de 60 negócios atendidos em Santos, na Baixada Santista e em São Paulo.
Quer o DRE da sua operação estruturado?
Monto com você, com as categorias que fazem sentido no seu negócio, e ensino a manter. Me conte como está hoje.