Início  ›  Blog  ›  DRE para restaurante

DRE para
restaurante

Gestão financeira · 27 de julho de 2026 · 8 min de leitura · Por Bia Chiandotti

Existe uma frase que ouço em quase toda primeira reunião: “o movimento tá bom, mas não sei pra onde vai o dinheiro”. A resposta quase sempre está numa conta que o negócio nunca montou.

O que é o DRE

DRE é a sigla de Demonstrativo do Resultado do Exercício. É o relatório que organiza tudo que entrou e tudo que saiu num período e mostra, no fim, quanto de fato sobrou.

Parece óbvio, mas quase nenhuma operação pequena tem. O acompanhamento é feito pelo extrato bancário — e extrato não é resultado.

Por que o saldo do banco engana: ele mostra o que já foi pago, não o que foi gerado.

Você pode terminar o mês com R$ 30 mil no banco e ter tido prejuízo, porque metade das contas do mês vence só na semana seguinte. E pode terminar com saldo apertado num mês excelente, porque pagou o 13º. O extrato responde "tenho dinheiro hoje?". O DRE responde "este mês deu lucro?".

A estrutura, linha por linha

Um DRE de restaurante tem seis blocos. A ordem importa, porque cada um responde a uma pergunta diferente.

1. Receita bruta

Tudo que você vendeu: salão, delivery, balcão, eventos. Separe por canal — é o que permite descobrir depois qual canal sustenta o negócio.

2. Deduções

O que sai direto da venda: impostos sobre faturamento, taxas de cartão, comissão de aplicativo. Receita bruta menos deduções é a receita líquida, e é sobre ela que a análise real acontece.

3. CMV

O custo dos insumos consumidos no período. É a maior linha variável da operação. Se você ainda não calcula, comece por aqui.

Receita líquida menos CMV é a margem de contribuição — quanto sobra de cada venda para pagar a estrutura.

4. Custos fixos

O que existe independentemente do movimento: aluguel, folha e encargos, energia, água, gás, internet, contabilidade, softwares, seguros, manutenção.

Folha é, em quase toda operação, o segundo maior custo depois do CMV — e o mais difícil de ajustar rápido.

5. Custos variáveis não-CMV

Embalagem, descartáveis, produto de limpeza, marketing. Variam com o movimento mas não são mercadoria vendida.

6. Resultado

O que sobrou. Se for negativo, o mês deu prejuízo — mesmo que o banco esteja positivo.

Exemplo completo

Um restaurante de porte médio, mês fechado:

DRE do mês

Receita bruta — salãoR$ 92.000
Receita bruta — deliveryR$ 38.000
Receita bruta totalR$ 130.000

Deduções

Impostos (8%)− R$ 10.400
Taxa de cartão (3%)− R$ 3.900
Comissão de aplicativo (22% sobre delivery)− R$ 8.360
Receita líquidaR$ 107.340

Custos

CMV− R$ 41.600
Margem de contribuiçãoR$ 65.740
Folha e encargos− R$ 34.000
Aluguel e condomínio− R$ 11.000
Energia, água, gás− R$ 6.200
Embalagem e descartáveis− R$ 4.100
Contabilidade, softwares, seguros− R$ 2.400
Manutenção e limpeza− R$ 1.900
Marketing− R$ 1.500
Resultado do mêsR$ 4.640
Margem líquida de 3,6% sobre a receita bruta.

Faturou R$ 130 mil e sobraram R$ 4.640. É um resultado apertado, mas agora é visível — e cada linha aponta onde mexer.

Repare na comissão do aplicativo: R$ 8.360 num mês. É mais que o resultado inteiro. Esse é o tipo de descoberta que só aparece quando o DRE separa por canal.

Ponto de equilíbrio

Com o DRE montado, dá para calcular quanto você precisa faturar para não ter prejuízo.

Ponto de equilíbrio

PE = Custos fixos ÷ Margem de contribuição %

Custos fixos do exemploR$ 61.100
Margem de contribuição sobre receita bruta50,6%
Faturamento mínimo mensalR$ 120.751
Cerca de R$ 4.025 por dia num mês de 30 dias de operação.

Esse número muda a conversa. Você para de perguntar "vendemos bem hoje?" e passa a perguntar "passamos dos R$ 4 mil?".

E ele responde perguntas que antes eram intuição: vale abrir no feriado? Compensa contratar mais uma pessoa? Aquele evento com desconto de 20% dá lucro?

Erros que distorcem tudo

Misturar conta pessoal com a do negócio

O erro mais comum e o mais destrutivo. Retirada do sócio precisa ser uma linha, com valor definido. Sem isso não existe DRE confiável — e não dá para saber se o negócio paga o próprio dono.

Considerar o pró-labore como lucro

Pró-labore é custo, e entra na folha. Lucro é o que sobra depois dele. Um negócio que só paga o salário do dono não é lucrativo, é um emprego com risco de empresário.

Registrar pelo pagamento, não pela competência

A conta de energia de julho pertence a julho, mesmo que seja paga em agosto. Registrar pela data de pagamento embaralha os meses e impede comparação.

Esquecer os custos anuais

13º, férias, IPTU, licenças, alvará. Divida por doze e provisione todo mês. Quem não faz isso tem onze meses bons e um desastroso, todo ano.

Não separar por canal

Salão e delivery têm estruturas de custo muito diferentes. Juntar os dois esconde qual está sustentando o negócio — e qual está só ocupando a cozinha.

Como manter a rotina

DRE só serve se for feito todo mês. Algumas coisas que ajudam:

  • Feche sempre no mesmo dia, com a mesma regra
  • Faça o inventário antes de qualquer entrega do mês seguinte
  • Mantenha um plano de contas fixo — não crie categoria nova a cada mês, ou perde a comparação
  • Compare sempre com os meses anteriores; o valor isolado diz pouco, a tendência diz tudo
  • Reserve uma hora por mês para ler o resultado, não só preencher

Comece imperfeito. Um DRE com categorias aproximadas, feito todos os meses, vale infinitamente mais que um DRE perfeito feito uma vez e abandonado.

A precisão vem com a repetição. O que não vem com nada é o hábito de não olhar.

Perguntas frequentes

O que é DRE de restaurante?

É o Demonstrativo do Resultado do Exercício: o relatório que organiza receitas, deduções, CMV, custos fixos e variáveis de um período e mostra quanto de fato sobrou. É o que revela se o mês deu lucro — algo que o saldo bancário não informa.

Qual a diferença entre DRE e fluxo de caixa?

O DRE mostra o resultado por competência, ou seja, o que foi gerado e consumido naquele mês, independentemente de quando foi pago. O fluxo de caixa mostra a movimentação real de dinheiro por data de pagamento. Você precisa dos dois: um diz se deu lucro, o outro diz se vai ter dinheiro na sexta.

Como calcular o ponto de equilíbrio de um restaurante?

Divida o total de custos fixos pela margem de contribuição percentual. O resultado é o faturamento mínimo para não ter prejuízo. Dividindo por dias de operação, você obtém a meta diária.

O pró-labore entra como custo ou como lucro?

Como custo, dentro da folha. Lucro é o que sobra depois de todos os custos, incluindo a remuneração do sócio. Tratar pró-labore como lucro mascara a real saúde do negócio.

Com que frequência devo fechar o DRE?

Mensalmente, sempre no mesmo dia e com o mesmo plano de contas. A comparação entre meses é o que dá valor ao relatório — um DRE isolado informa pouco.

Preciso de contador para montar o DRE?

O contador cuida do DRE fiscal, que atende à legislação. O DRE gerencial, que é o usado para tomar decisão, é montado com as categorias que fazem sentido para a sua operação e pode ser estruturado junto com uma consultoria. Os dois convivem e têm finalidades diferentes.

BC

Bia Chiandotti

Gastrônoma, com MBAs em Gestão Financeira e em Negócios da Gastronomia. Há mais de 7 anos ajuda restaurantes, padarias, hamburguerias e buffets a aumentarem a lucratividade por meio de gestão, precificação e processos. Mais de 60 negócios atendidos em Santos, na Baixada Santista e em São Paulo.

Quer o DRE da sua operação estruturado?

Monto com você, com as categorias que fazem sentido no seu negócio, e ensino a manter. Me conte como está hoje.

Falar no WhatsApp